Recebi uma nova proposta de trabalho, aceito ou não? O que devo ponderar?

Este tema pode ser tratado a partir de duas abordagens distintas. A primeira, como algo grandioso em nossa vida, onde quase tudo pode mudar com a mudança do trabalho e, a segunda, apenas como um mero assunto profissional, de importância menor. Assim, vou desenvolver possíveis linhas de raciocínio tanto para uma quanto para a outra abordagem:

Mudar de trabalho pode ser mudar de vida (tipo um)

Das figuras de linguagem, as metáforas são as minhas amigas prediletas. Pegar emprestados significados de outros contextos para elucidar e colorir uma certa análise em curso sempre me auxiliou na compreensão de vieses pertinentes interessantes. Assim, em certo sentido, gosto de pensar, por exemplo, que minha atividade profissional deve ter características semelhantes as da minha parceira, minha esposa. De forma objetiva, minha atividade profissional deve me despertar desejo, ser objeto de minha admiração e, ao mesmo tempo, de orgulho em tê-la em minha vida. Quando penso no trabalho, preciso sentir essas três coisas emprestadas da minha relação afetiva essencial. Duas não bastam. Preciso ter desejo em trabalhar onde vou trabalhar, algo de dentro para fora, também preciso ter uma certa admiração e, por último, um profundo orgulho do pertencimento àquela organização da qual faço parte. Como disse, preciso ter os três sentimentos, dois apenas não bastam.

Mudar de trabalho é também mudar de vida, deve ser algo grandioso. Jamais trocar seis por meia dúzia, de ficar fazendo contas. Mudar de trabalho deve ser algo raro, com alto potencial para revolucionar sua vida. Pode implicar mudar de país, estado ou cidade. Novas culturas. Vai enriquecer meus relacionamentos, gerar novos propósitos e me tornar uma pessoa mais interessante. Todas essas grandes questões devem me saltar aos olhos quando falo de forma sempre apaixonada sobre o tema e analiso se devo mudar ou não de trabalho. Assim, se a proposta de mudança de trabalho merecer tal abordagem, recomendo que ela seja levada muito a sério e tratada por todo seu núcleo familiar.

Mudar de trabalho é apenas uma decisão profissional (tipo dois)

Mas podemos também tratar do tema de forma mais contida e racional, de uma forma mais prática e menos retumbante. É quase uma mudança de endereço, continuarei a trabalhar no mesmo setor e, de alguma forma, não haverá muitas novidades.

Em mais de quarenta anos de trabalho, mudei poucas vezes de local de trabalho e todas as mudanças foram do tipo um. Antes de mudar de local de trabalho, mudei muito mais dentro do mesmo vínculo do que apenas trocando-o. Podemos tornar nosso aprendizado mais dinâmico e enriquecedor, assumindo novos desafios na empresa em que já atuamos do que em um possível tiro no escuro nem sempre bem avaliado. É sempre preciso questionar de forma profunda e serena a qualidade da relação que temos no trabalho atual e, em que proporção, aquilo que não gosto não tem também a minha responsabilidade. É também preciso sempre lembrar que não mudamos essencialmente apenas porque mudamos de trabalho.

Bem, deixando as grandes questões de lado e instrumentalizando mais a análise sobre aceitar ou não um convite, um profissional diferenciado recebe com certa frequência sondagens para mudar de empregador. Quando é que devemos considerá-la seriamente? A primeira é se a oportunidade é de uma mudança tipo um ou tipo dois. Recomendo sempre às novas lideranças mudarem apenas quando as mudanças podem ser mudanças do tipo um. Se a mudança vai significar apenas fazer contas e ponderar aspectos práticos e logísticos, quase sempre recomendo continuarem sua trilha evolutiva na empresa onde já estejam trabalhando.

É claro que determinados aspectos e variáveis exógenos podem modificar a análise que ora proponho. Sua empresa pode estar saindo do mercado, ter sido vendida em situações desfavoráveis ou mesmo alguma decepção profunda pode redefinir a relação que você tinha com a atual empresa, fazendo com que não haja clima para a continuidade do vínculo.

Assim, resumindo, se vai mudar de trabalho, procure por mudanças tipo um. Não introduza em sua vida mudanças tipo dois sem necessidade. Elas tendem mais a nos desgastar do que a nos enriquecer.

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