Como viveriam Hegel e Tomás de Aquino dentro de uma empresa?

Em 1990, quando dirigia a antiga CEMAN, tida por muitos da comunidade de manutenção industrial brasileira como uma empresa de referência singular, implementei um experimento antropológico a fim de aumentar minha compreensão sobre o que motivava as pessoas a trabalharem de forma mais engajada e produtiva. Era algo bem diferente.

Para tal tarefa, contratei um professor de filosofia, estudioso de Hegel, e um teólogo, admirador de Tomás de Aquino. Eles deveriam mergulhar, cada um com um roteiro específico, no dia a dia da empresa. Para que eles pudessem se sentir como quase empregados, deveriam usar o mesmo transporte de todos, uniformes, refeitório e, em rodízio, conhecer todas as áreas da empresa. Essa imersão deveria durar quatro meses e, ao final, deveriam me entregar suas impressões em um texto com um formato pré-definido e com a resposta à pergunta original: o que nos engaja e nos motiva? Foi uma experiência única, tornei-me amigo dos professores e até hoje guardo com carinho os relatórios produzidos.

A empresa mais antiga no mundo de que se tem notícia é uma japonesa, construtora de templos, fundada no século VI, dC. Desconfio que sua origem tenha mais a ver com a vocação de seus fundadores (no sentido luterano da palavra) do que com a ideia moderna que temos hoje de empresa. Provavelmente, era um grupo de pessoas com habilidades específicas e motivadas por tudo, menos o lucro que ainda não existia como hoje. Era uma companhia, uma agremiação que convivia e também construía templos. Eram pessoas com um fim comum, um acompanhando o outro, uma companhia, capaz de construir obras extraordinárias. De onde vinham a motivação e o engajamento desse convívio? Seguramente, não era do salário ou de algo afim (que também não existia como hoje), mas de algo superior, algo ligado a propósitos e a legados. Não conheço a participação em detalhe a história desse grupo-companhia-empresa tão longevo para detalhar possível exploração de mão de obra, é possível que tenha ocorrido, mas não é o foco desse artigo.

Obras humanas maravilhosas foram erigidas muito antes que o lucro econômico fosse social e epistemologicamente construído. De onde vem toda essa motivação? A motivação de fazer coisas das quais nos orgulhamos não deixa espaços a serem preenchidos por respostas objetivas. Algo transcende, precisa transcender.

Pulando alguns séculos, encontramos dois exemplos mais próximos de nosso país e de nossa história. O primeiro deles relaciona as diversas Companhias de navegação das Indias, empreendimentos entre os séculos XVI e XIX que buscavam dominar o comercio europeu com a Índia, África e o novo mundo, rivalizando com o domínio ibérico de então. Importante notar que a palavra “Companhia” já era utilizada e precisava prestar contas aos seus proprietários.

O segundo exemplo de interesse é a Companhia de Jesus, fundada por Inácio de Loyola com o objetivo de propagar o catolicismo e fazer frente à expansão do protestantismo. Ela chegaria ao Brasil na comitiva de Tomé de Sousa com o objetivo de converter os nativos ao cristianismo. Mais uma vez, a palavra Companhia se prestava a empreitadas distantes do que temos hoje.

A motivação humana e nosso engajamento em uma causa, um propósito fazem parte de nosso processo civilizatório. Isso vem desde que nossa história começou e não é possível compreender suas raízes sem a utilização de diversos saberes. A filosofia, a antropologia, a sociologia, a espiritualidade e tudo que compõe o humano estão presentes e não deixam de habitar nossos empregados quando estão exercendo suas funções.

As lideranças devem aprender o mais cedo possível a fertilizar suas estruturas incentivando (mais que permitindo) que os nossos grandes pensadores estejam presentes na evolução de nosso pessoal. Hegel e Tomás de Aquino, dentre outros, precisam estar presentes para que tenhamos companhias-empresas cada vez mais vivas, engajadas, motivadas e criativas.

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