Até que ponto a experiência ajuda?

A Liderança monta o quebra-cabeça daquilo que ainda não existe
3 de fevereiro de 2021

Autor: Murilo Sampaio

A experiência ajuda até o ponto que desistimos do novo, até o ponto que queremos repeti-la para lidar com o que ainda não existe.

As palavras são tanto mais ambíguas quanto mais adentramos no mundo intangível. Experiência para lidar com a rotina repetitiva é essencial para operar e otimizar sistemas dominados. Porém, quando a rotina domina o impulso criativo que há em todos nós, ela deve ser repensada. Cabe ao líder, de forma responsável, criar uma cultura que faça a organização se questionar continuamente “até que ponto a experiência ajuda?”.

Sempre defendi que a inovação vem da repetição, da rotina dominada. Mas, dialeticamente, quanto mais você toca, mais inspirado você pode compor. Via de regra, as grandes invenções decorrem do domínio da rotina de paradigmas anteriores. Quanto mais repito, mais experiente me torno e mais posso inovar, desde que meu instinto criativo não envelheça. Uma pessoa envelhece quando a rotina repetitiva lhe é o bastante para viver.Quando o mundo da vida se reduz ao mundo das coisas.

Do latim periri (testar, provar…), antecedido por ex (de fora, ideia de externo), chegamos a experientia (empreender, testar o novo). Curiosamente, periri também dá origem às palavras perigo e perito. As palavras são criadas, usadas de acordo com as circunstâncias e, com o tempo, assumem muitos significados.

“A palavra serve para pescar o que não é palavra, vivências anteriores à formulação.” (Clarice Lispector)

A palavra experiência ao longo do tempo foi pavimentando um longo caminho de vivências e de conhecimentos.

“A experiência jamais engana, e o erro é produto do pensamento especulativo”, ensinava Maquiavel em sua doutrinação sobre a pragmática do poder em nossa fase renascentista. Até que ponto essa afirmação ainda é válida e nos ajuda a liderar uma organização em pleno século XXI?”. Mudam-se as tecnologias, mas alma do Sapiens nem tanto.

Hoje, os líderes têm que tirar o máximo do estado da arte da tecnologia (mundo das coisas), sem qualquer descuido com os desafios de sua eterna condição emocional e espiritual (mundo da vida). 

“Não se pode criar experiência. É preciso passar por ela.” (Camus).

A experiência no mundo existencial do indivíduo é única, não se repete. Essa tensão entre a experiência que deve ser repetida e a experiência que deve tentar o novo acompanhará o líder durante toda a sua vida.

“Se se tem caráter, tem-se também uma experiência típica própria, que sempre retorna” (Nietzsche).

O que muda em nós e o que não muda? A parte de nós que não muda, nossos sentimentos e emoções, se encaixa nessa máxima. Mas, hoje, mais e mais, há uma outra parte em nós que deve morrer semanalmente para ser substituída pela mais recente inovação.

Assim, o desafio da coexistência, da experiência para o novo e da experiência da repetição, é o maior dentre os que nossas lideranças têm que enfrentar.

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