Ressignificando o trabalho

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Autor: Murilo Sampaio

Nessa e nas próximas pandemias, as crises sempre nos ajudam a ressignificar o trabalho. 

Desde as origens, o desafio da sobrevivência, ditado pelo instinto mais básico de todos nós, foi, é, e continuará sendo enfrentado com as ferramentas novas ou já disponíveis nas circunstâncias da respectiva época. 

A linguagem transmitida, a cada dia com maior velocidade, potencializa o trabalho – no início, mais individual, artesanal e de ciclo imediato – dando origem aos métodos, à geração do conhecimento, à ciência, à tecnologia, coletivizando e separando a produção do consumo, criando vilas, cidades, nações e redes planetárias, expandindo os significados da relação do indivíduo com sua atividade diária. O trabalho é cada vez mais de cada um e cada vez mais integrado. Dialético.

O trabalho avança se utilizando de novas formas e locus, ditados pela tecnologia, mas sempre impulsionado pelos mesmos instintos anteriores ao surgimento da linguagem. A linguagem dos instintos. Não devemos esquecer esse desafio de equilibrar o inexorável avanço tecnológico com as demandas espirituais de nossa espécie.

A história oferece inúmeros saltos tecnológicos em nosso processo civilizatório. Da agricultura à navegação, da mineração à arquitetura, da medicina à engenharia espacial. Na antiguidade, inúmeros foram os engenhos inovadores que nos levaram à revolução industrial, criando e destruindo atividades. O trabalho, o homem e sua atividade diária, sempre moldou nossas vidas. 

O século XX, tecnologicamente, iniciado com o motor de combustão interna e o automóvel, foi encerrado com a infância da internet e apontou para uma integração exponencial da população mundial com perspectivas imprevisíveis. Torna-se antigo o que foi recentemente lançado. A efemeridade, a volatilidade, a virtualidade e a informação de fluxo exponencial parecem provocar incessantemente nossos instintos básicos que clamam por proteção e afeto. Estamos num século pleno de incertezas, riscos e quase nenhuma previsibilidade. Mas, integrados. Teremos causas planetárias, ditadas e discutidas pela espécie. 

E nosso trabalho diário no meio de tudo isso?

A pandemia que vivemos tem vários viéses e desdobramentos. Um deles é o de acelerar mudanças e tendências que já eram de certa forma conhecidas por muitos, com destaque para a convergência entre o processamento acelerado de informações (dados, imagens, sons, falas, fatos, notícias…) e a instantaneidade de sua transmissão planetária. 

De que forma nossa presença se faz necessária nos escritórios, nos campos de plantação, em nossas indústrias ou mesmo nos locais de eventos artísticos? Como aliar a facilidade oferecida pela tecnologia com a demanda de nossos instintos humanos? A presença, o relacionamento físico e o senso de pertencimento a um grupo são absolutamente necessários? Se sim, em que grau? 

Acredito que já estamos atingindo um equilíbrio entre nossa rotina diária e a cultura do trabalho, trabalho ressignificado, que emergirá como resposta evolutiva que as sociedades darão para o período pós-pandemia. Viveremos cada vez mais equilíbrios dinâmicos, homeostáticos, nossos instintos demandam estabilidade, proteção e até conforto, enquanto nosso mundo externo emite sinais opostos. Os modelos mentais, do sim ou não, prescritivos e repetitivos deverão ser aperfeiçoados e substituídos.

 Naquilo que posso prever, nossas empresas continuarão a buscar a homeostase entre o trabalho remoto e o trabalho presencial. E isso não deverá ser linear (algo igual para todos). O plano a ser seguido deve detalhar nossos passos, respeitando nosso estamento jurídico, sanitário e, aproveitar para que o medo, do início da pandemia que todos sentimos, aumente a consciência de cada um de nós, valorizando com lucidez o desafio de progredir em qualquer circunstância. 

Uma nova palavra vai surgir para nos referirmos ao que estamos criando. Uma palavra que sintetize o significado desse NOVO TRABALHO, essa rotina solitária e conectada, mais remota que presente, uma sinergia espiritual-tecnológica que mistura menos sentimentos e mais funcionalidade, mais visão com menos toques em um longo caminho com chegada contida, indivíduos juntos, mas em raros times.  Sempre foi assim: primeiro criamos o fato, depois a palavra.

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