Acionistas-astronauta

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gerenciamento estratégico Murilo Sampaio

Texto de 2007, autor Murilo Sampaio

Dediquei quase toda minha vida profissional a aprender (conhecer e praticar) como tornar uma organização mais eficiente. Da habilidade individual até implantar e otimizar o gerenciamento estratégico compartilhado por todo o tecido da empresa, minha atenção e meus estudos visavam a fazer melhor, com custos menores, essa trajetória de administrar uma organização. Sempre acreditei que administrar é aumentar o valor da organização. Agora e no futuro. Trazer os “pontos-futuro” para a realidade das pessoas, motivando-as a se apropriarem de seus desafios.

Vivenciei a trajetória da Qualidade desde a “ignorância entusiasmada” do início dos anos 80 até o certo cansaço e desencanto com esse nome no fim da década de 90. Conceitos, métodos e ferramentas gerenciais: tudo pra tornar a organização melhor e em busca da excelência. Das ferramentas gerenciais mais utilizadas no mundo (*1), pelo menos, três quartos foram vivenciadas pelas empresas que dirigi.

Atmosfera gerencial

Do chão da fábrica até a liderança executiva da organização, esse caminho, pode ser estimulante e enriquecedor. O poder para mim tinha menos a ver com propriedade do que com exercê-lo para colocar em prática formas e ideias para construir uma empresa melhor. De mais valor. Era uma visão tão pura quanto necessária para focar apenas nas melhorias organizacionais. Discutíamos e até brigávamos no trabalho, não para ter a propriedade da empresa, mas sim, para ter mais poder nela. Via de regra, essa é a atitude do executivo profissional. É como se o poder quase sempre se confundisse com a propriedade e em nome dela, pudéssemos exercê-lo continua e permanentemente. Dependendo do estágio de evolução das empresas (*2), a presença do proprietário é maior ou menor. Mas, sempre existirá. Nas empresas, ditas profissionalizadas, a ausência do exercício de propriedade pode ser tão alta que os executivos, de tão poderosos, podem chegar a pensar que são seus proprietários. Pelo fato de os mesmos estarem fora da contenda diária, muita coisa é feita à margem daquilo que seria suas orientações.

Só os acionistas (ou donos) mais empreendedores, ousados e visionários percebem com clareza esta fronteira. O ponto onde é demarcado o fim do campo de atuação do poder gerencial e o início do poder da propriedade. Chamo esta fronteira de “atmosfera gerencial”. Nós, gerentes, vivemos a vida toda nessa atmosfera. Só alguns proprietários do bloco de controle, muito raros, vão além dela. Chamo-os de “acionistas-astronauta”. Tem sorte a empresa que possui tais preciosidades. Aqueles que podem sair da empresa, transitar por outros espaços, ver mais além, o todo até, e, de vez em quando, retornarem à atmosfera, sabendo provocar e contribuir sem interferir. Aí também vai um desafio dialético: atuar sem tocar! É muito raro encontrar um proprietário de grande empresa com tal evolução.

*1 Ver pesquisas bienais da Bain Company
*2 Ver “Estágios evolutivos das empresas” na palestra “Gestão Estratégica: O processo de mudança na implantação e execução.” na categoria “Estratégia” das publicações.

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