Trabalhei trinta anos como executivo e apenas há dez anos como empresário ou melhor, no meu caso, empresário-executivo. Hoje, consigo visualizar com mais clareza algumas diferenças a partir da minha experiência.
Há quarenta anos ouço que o melhor empregado é aquele que se comporta como dono. Ter o zelo pelo dinheiro da empresa como se fosse seu ou, ainda melhor, ter seus sonhos absolutamente em fase com os de seus acionistas. Será isso possível? Vamos analisar o assunto sob diferentes dimensões:
Comprometimento
Quando a empresa é nossa, nossa vida está ali em jogo. Não há horários nem férias. Nossa racionalidade executiva tende a se transformar em uma certa obsessão realizadora. O comprometimento é de curto e longo prazos. Quando somos apenas executivos temos mais calma com as coisas e as circunstâncias. Somos mais compreensivos e mais lógicos. Menos intuitivos. Para o dono, há um sentimento mais profundo quase como se a empresa fosse uma filha. Há afeto e a trajetória da empresa e de sua vida quase se confundem. A empresa é seu mundo. Enquanto apenas executivos, tendemos a relativizar e sempre podemos trocar de empresa. Assim, o comprometimento de um executivo poderá se aproximar ao comprometimento do dono, mas jamais o mesmo. Se saímos do nível da liderança, a falta de comprometimento anda é maior. Com raras exceções, não encontraremos no chão da fábrica, comprometimento que só o dono tem.
Relação com o Risco
Ela é totalmente diferente. Acho que o “empresário-raiz”, aquele que empreende do nada (bem diferente de herdeiros, uma categoria à parte) é uma pessoa que gosta do risco. Arriscar está no seu sangue. Muito diferente do executivo que coloca em risco, no máximo, sua carreira nem de longe sua vida. Enquanto executivo, prezamos muito mais a segurança. Enquanto empresário, o risco nos seduz.
Lembro-me de quando fiz o Caminho de São Tiago de Compostela, só, e o quanto foi importante para tomar a decisão de deixar de ser apenas presidente de empresas e passar a ser sócio ou dono. Uma experiência espiritual importante que me permitiu trabalhar nessa relação Risco & Medo. Recomendo a todos que desejam evoluir como pessoa e querem aumentar sua “espessura existencial”. É uma aventura única no caminho do necessário autoconhecimento.
Remuneração
Até um certo tamanho, o Dono não tem salário, remuneração fixa. O que obtém é fruto do resultado do negócio. O ganho pode ser tanto maior quanto sua capacidade de tomar risco e empreender com sucesso. Costumo falar que o dono só tem remuneração variável.
A partir de um certo tamanho, empresas de capital aberto, os sócios, rebatizados de acionistas, são empurrados para o Conselho de administração e passam a ter sua remuneração de maior relevância em função da valorização das ações na Bolsa de Valores e dos dividendos distribuídos. Empresas grandes deixam de ter donos e eles são os que mais sentem isso. Em nome da boa governança, a figura do dono deve desaparecer e isso não vem sem uma certa perda na alma da empresa.
Deixar de ser dono e virar acionista é uma viagem que nem todos conseguem. É um desafio que abordaremos em outros artigos.
Valores
Sempre achei que os valores são da pessoa, independentemente se são donos ou executivos, são individuais e quando essas pessoas lideram uma organização fazem dos seus valores a cultura da empresa.
O valor da última palavra
Uma das situações mais difíceis enquanto executivo é sentir que mesmo tendo mais conhecimento sobre um certo assunto, você não consegue emplacar seu ponto de vista. Para mim, foi uma grande libertação poder dar a última palavra sobre temas que domino.
Vejo muitos executivos que se tornaram donos de seus próprios negócios e avançaram. Possuíam conhecimento, garra e uma boa relação com o risco. A minha hora veio meio tarde, mas me abriu um novo mundo. Recomendo com cuidados.
1 Comentário. Deixe novo
Grande Murilo, PARABÉNS, eu já tinha lido esse seu artigo um tempo atrás, me lembrei dele e resolvi reler e comentar.
De fato existe uma grande diferença entre dono e executivo. Se no seu caso você acha que veio um tanto tarde, no meu, veio tardíssimo.
Mesmo assim, não me arrependo, porque nos meus 50 anos como executivo (tenho apenas cinco anos como dono, atualmente, incluindo a fase horrível da pandemia), sempre tive proatividade, o que chamamos hoje de intraempreeendedorismo nas empresas que trabalhei.
Refletindo sobre aquele seu outro artigo, sobre “rebeldia” sempre batalhei contra o “staus quo”, nas empresas e pessoalmente, implementando Engenharia de Manutenção, Gestão pela Qualidade, Seis Sigma e concluindo Mestrado, Doutorado e Pós Doutorado com passagens no exterior. Até na UFBA, uma organização tipo uma “ameba”, aproveitei oportunidades para implementar algumas boas iniciativas, que geraram resultados.
Sobre o poder da última palavra que o empresário possuí, sinto-o na pele. É algo completamente diferente a gente ter a consciência que você comenta: […} Para mim, foi uma grande libertação poder dar a última palavra sobre temas que domino.
Outro dia, comentando sobre esse tema com um ilustre conhecedor (foi presidente de empresas no Polo, Diretor do BNDES, Presidente da ACB), ele colocou o tema de forma bem simples: “O Presidente de uma empresa pode ser demitido por telefone,…basta um telefonema, a qualquqer momento!”.
Sobre a última frase do seu artigo: […] A minha hora veio meio tarde, mas me abriu um novo mundo. Recomendo com cuidados.
Acrescento que “com muito cuidado mesmo”, pois nesse nosso país onde a produtividade não cresce há 40 anos e onde existem vários motivos para não crermos que o mesmo decole, o que vemos é pessoas se dando melhor quando entram para bons cargos vitalícios da administração pública.
Acredito que na Bahia isso seja mais verdade do que em SP e alguns Estado do sul do país.
Eu mesmo, como engenheiro, sempre fui a favor da livre iniciativa, tendo empreendido em três diferentes oportunidades. Mas no final das contas acabei com um salário razoável de Professor Federal, vitalício e que ainda passará para a esposa no caso de primeiro falecer eu.
Se juntar minha família e da minha esposa, somos 18 pessoas (filhos), dos quais 12 são funcionários e estão bem. Dos 6 restantes uma irmã não conta, pois mora nos EUA ha mais de 30 anos, onde tem um excelente emprego na Adobe. Um cunhado se deu bem com fazendas e negócios com açucar, mas teve dois ataques cardíacos e outra doença grave, tendo já falecido. Um irmão, engenheiro, não se deu mal, mas por trabalhar como gerente de empresas de petróleo, nas boas fases.
Esse cenário acima relatado me obriga a concluir que o seu “COM CUIDADOS” merece MUITA, mas MUITA atenção mesmo!!!
Mas continuo tentando, agora com uma empresa, a Êxito Consultoria em Liderança Ltda, na qual sou a última palavra, e represento a FranklinCovey, empresa mundial presente em 160 países, que tem excelentes conteúdos.
Um abração Murilo,
Cordialmente,
Abel