Liderança e seu papel institucional

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 Autor: Murilo Sampaio

A relação entre o ambiente, do mais coletivo ao mais familiar, e a prática do indivíduo é matéria de estudo contínuo nas abordagens institucionalistas. Ao tomarmos determinada ação, somos nós ou o outro que está agindo? Nossa formação (ou deformação) é estruturada pela vigência da ordem predominante e temperada pela condução de quem nos lidera. Daí, a importância de refletir como processo e estilo podem amalgamar uma escola e condutas para as mais diferentes organizações que compõem uma sociedade e, por extensão, uma nação.

Analisando a atual situação brasileira, e suas lideranças em particular, à luz de possíveis desdobramentos institucionais, há o que comemorar e, também, com o que se preocupar.

O poder público, em suas múltiplas esferas, exerce sobre nós, além de seus efeitos práticos e tangíveis, uma pressão institucional capaz de influenciar a formação de espectros arquetípicos que ilustram, ou mesmo ressaltam, determinados traços de suas lideranças. Seja pela ampla exposição midiática, seja pela importância de suas ações, o líder em cargo público acaba contribuindo sobremaneira na reverberação de determinados padrões.

O exercício do poder e a forma através da qual é exercido são os mais importantes elementos na formação de uma cultura. Se, hipoteticamente, um determinado líder é avesso às rotinas gerenciais de seu cargo, priorizando tratativas estratégicas e políticas ou, até mesmo, um apego exagerado ao discurso e à forma em detrimento da qualidade do conteúdo e, circunstancialmente, os resultados de tal modelo não são ruins, tal modelo pode prosperar e, institucionalmente, se multiplicar. Mas, não, necessariamente, sustentar-se à longo prazo.

Na história recente de nosso país, é possível, sob o prisma institucional, antever ou mesmo avaliar os efeitos que estilos de liderança poderão deixar em nossas organizações, sejam elas grandes empresas ou um pequeno comércio de bairro.

As recentes decisões da suprema corte de justiça, a apontarem que algo deve ser mudado e que as consequências de nossos atos, cedo ou tarde, serão avaliadas e julgadas, constituem um movimento com possível efeito institucional. Estilos, no caso, eventualmente desajeitados, não chegam a comprometer a substância e os resultados processuais. Na vida prática das pessoas simples, um sinal de mudança foi captado e, possivelmente, com efeitos culturais a serem ampliados ou esquecidos com o passar do tempo.

Voluntarismo gerencial

Já em outra esfera do poder público, sinais de preocupação com o viés gerencialista da rotina dos órgãos públicos (não devemos esquecer que, via de regra, o Estado é o maior prestador de serviços de um país), buscando desempenho e eficácia, é visto com animação pelos agentes sociais, alguns já cansados de apenas tanto discurso e planos. Assim, um certo voluntarismo gerencial deve ser visto com bons olhos pela sociedade.

Temos então a celebrar um (re)nascimento do sentimento de justiça igualitária e um certo zelo pela gestão da coisa pública. Isso é bom. Mas, como quase tudo na vida, não trará necessariamente mudanças importantes ou sustentáveis ao longo do tempo se o esforço não for contínuo e se aperfeiçoar. As lideranças precisarão persistir. A cultura vigente tem sempre uma inércia tentacular a nos prender no status quo. E aí, por certo, a qualidade da liderança poderá determinar o alcance da mudanças, cujos sinais estão a ocorrer.

As chamadas ciências sociais são imprecisas, mesmo sendo tratadas como tal. Há o que se comprova, se evidencia, de forma quase irrefutável e, a partir de então, pode tornar-se uma boa prática e há também o que, comprovadamente, não traz resultados e, por isso, não se sustenta. Desta afirmação genérica, e buscando aderência com o texto, é importante focar o papel da liderança, seu potencial institucional e o que assistimos neste momento na gestão de nosso país.

O espaço deixado pelo pouco zelo na gestão da prestação dos serviços públicos acabou por nos fazer ver com certa esperança a chegada voluntariosa de um novo gestor, no caso do governo federal, uma gestora. Mas, como dissemos acima, a inércia cultural pode se contrapor ao desejo de mudança. Se a liderança insiste em mudar, ela deve adequar seu estilo de acordo com o alcance desejado para suas mudanças.

Nas ciências sociais, em especial na administração das organizações, está provado que o exercício autoritário de poder pode, circunstancialmente, trazer resultados melhores, mas a longo prazo, os mesmos não se sustentam. Os resultados sustentáveis são obtidos através da criação de organizações comprometidas com o bem fazer. A liderança maior deve ser a formadora das lideranças que a sucederão e de toda a tessitura organizacional. Se uma prática autoritária persiste, as relações entre líderes se infantilizam e se precarizam definitivamente e os talentos deixam as organizações em busca de realização em outras organizações.

Assim, exemplos de autoritarismos contínuos na liderança das organizações públicas começam a ser institucionalmente multiplicados com efeitos eventualmente positivos, mas quase sempre efêmeros. O risco maior, a longo prazo, é o empobrecimento dos quadros públicos, seja pelo abandono ou pela desmotivação. Restarão apenas os alinhados e obedientes.

Finalizando, há sim o que comemorar e também sobre o que debruçarmos para que a coisa pública em nosso país possa permanentemente evoluir e fortalecer a capacidade brasileira em assumir papel relevante e compatível com nossas aspirações. Nossa liderança maior deve refletir sobre seu poder institucional de multiplicar estilo e boas práticas enquanto estiver, na precípua transitoriedade democrática, ocupando o cargo de gerente do nosso maior prestador de serviços.

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