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“A INOVAÇÃO E O DESEMPENHO DE EMPRESAS EM PROCESSOS DE ABERTURA DE CAPITAL NO BRASIL (IPO)”, autor Murilo Sampaio

São Paulo – 2012

…Assim, indivíduo, organização e sociedade formam o primeiro grupo a atribuir significados à inovação. No entanto, do trinômio acima relacionado, é na organização, síntese do indivíduo e sociedade, onde são encontrados os elementos estruturantes, capazes de operacionalizar as inovações.

A inovação como evento de repercussão econômica, seja ela radical ou incremental, é estudada visando a compreensão da dinâmica e dos ciclos econômicos e seus efeitos na sociedade. Já a inovação enquanto fenômeno que se estrutura para que possa ser implementada é estudada no âmbito dos teóricos organizacionais (GOPALAKRISHNAN, 2000).

A transformação científica em tecnologia aplicada e disseminada de forma massiva, introduzindo paradigmas inovadores e novos padrões qualitativos e quantitativos de consumo, está por trás da dinâmica e do crescimento econômico das sociedades. Essa abordagem, que busca a compreensão dos efeitos macroeconômicos da inovação, contextualiza a linha de pesquisa adotada, que será voltada para a análise da estruturação das inovações como fonte de vantagem competitiva sustentável e se origina a partir da utilização diferenciada dos recursos tangíveis e intangíveis da organização.

Do âmbito macroeconômico para um ambiente específico e localizado, o foco é a empresa (o locus microeconômico), onde as inovações são pesquisadas, estruturadas e difundidas. A inovação como resultado de mudanças organizacionais, capazes de transformar recursos tangíveis e intangíveis em vantagem competitiva. O elemento de análise passa a ser a empresa e sua capacidade de explorar novas ideias, aplicar recursos, desenvolver inovações e explorá-las nas diversas frentes possíveis.

Em seu trabalho seminal, na busca da compreensão e estruturação de uma teoria sobre o crescimento da firma (PENROSE, 1959), a autora não trata especificamente de inovação, apesar de fazer quatro referências a Schumpeter ao longo do texto quando da análise de novos produtos no processo de expansão da firma. Porém, é no prefácio da terceira edição do livro, já em 1995, que ela formula uma linha de raciocínio capaz de ligar a visão schumpeteriana do fenômeno inovação à sua teoria do crescimento da firma. Essa modificação torna a “destruição criadora” relevante para sua análise dos ciclos de conjuntura.

Michel Best (1990), percebe um Schumpeter que lida basicamente com um capitalismo no qual as grandes firmas são o motor da destruição criadora, “empresários com grandes ideias”, opondo essa concepção aos resultados produzidos pela interação coletiva de uma “cultura do aprendizado penrosiana”.

Aplicando o processo de Schumpeter às empresas bem-sucedidas de um modo geral, Best introduz o conceito de comportamento estratégico das firmas, visto como meio de “institucionalização da inovação organizacional schumpeteriana”.
Ao discutir o caso das empresas japonesas, ele argumenta, por exemplo, que a combinação dos ensinamentos de Scumpeter e de Penrose estão por trás do êxito das empresas japonesas, que conseguem alterar a noção de um empresariado baseada em ‘grandes ideias individuais’ para permitir uma cultura social de aprendizado, no qual as contribuições individuais devem vir tanto da base para o topo, como de parte de equipes de especialistas.

Nessa abordagem, é possível visualizar a inovação como uma “ponte”, um elo de ligação, entre o enfoque schumpeteriano do fenômeno macroeconômico e um enfoque clássico da teoria organizacional para compreender e operacionalizar o fenômeno em sua forma microeconômica, ou seja, através da firma. Continuando as possíveis abordagens que levam à inovação, e focalizando seus aspectos estruturantes, abrigados no âmbito da teoria organizacional, são relacionados abaixo três grandes elementos que auxiliam a entender como a organização desenvolve seu potencial inovador:

Recursos tangíveis (RT) e intangíveis (RI)

Segundo Barney (1991); Helfat e Peteraf (2003), é possível estabelecer, a partir da melhor utilização dos recursos, a fonte básica para a estruturação da estratégia e da diferenciação. Esse encaminhamento estratégico, na lide com os recursos, deu origem à RBV (Resource Based View) e, após desdobramentos teóricos, à RBT (Resource Based Theory). Wernerfelt 1984, aprofundando essa abordagem, afirma que a possibilidade de criação de novos produtos está limitada à disponibilidade do bom uso dos recursos disponíveis. A RBV está baseada na ideia de que a natureza dos recursos da empresa (como fonte de heterogeneidade/diferenciação) e a forma como eles são gerenciados podem levar à criação de vantagem competitiva sustentável (VCS). Os autores trazem a ideia de que essa combinação entre recursos e a habilidade em explorá-los (gerando uma competência específica, também chamada de capacitação ou capabilidade seja algo dinâmico que, assim como é alcançado, também pode deixar de existir. Nessa abordagem, são trabalhados conceitos já conhecidos da RBV e de seus desdobramentos (como a “capabilidade” dinâmica).

Nessa mesma linha, Peteraf e Bergen (2003), enfatizam a importância de otimizar a utilização dos recursos disponíveis no sentido de criar VCS, ao mesmo tempo que visualizam um ciclo de desempenho para eles, relacionando-o com a fase da inovação. Início do ciclo sendo relacionado ao desempenho que uma inovação em fase inicial pode proporcionar. No amadurecimento do processo de difusão, a VC deixa de ser diferenciada (processos de imitação tendem a corroer o ineditismo da inovação) e o ciclo de desempenho tende a se completar.

Em sua fase inicial, a inovação ainda em processo de desenvolvimento é avaliada pelos agentes econômicos como um evento envolto mais em risco do que em potencialidade de ganhos. Neste sentido, procede a necessidade de construir sistemas de concessão de crédito que possam apostar e apoiar inovações em sua fase conceptiva. A mera observância canônica de procedimentos de concessão e garantias parece não mais se adequar completamente a uma realidade, onde há, cada vez mais, uma crescente participação dos recursos intangíveis na geração de VCS, condição não alcançada pelos modelos de concessão atuais (FINGERL, 2004).

Através de abordagens financeiras, Kayo, Teh e Basso (2006), ressaltam a crescente importância em encontrar o procedimento adequado para evidenciar a importância dos RI na precificação das empresas.

Estratégia

A estratégia da organização como um elemento de gestão capaz de reunir os recursos e posicioná-los a fim de obter e sustentar vantagem competitiva em relação aos concorrentes. Porter, 1985, 1992, estabelece os elementos centrais (do custo à tecnologia) para que o posicionamento estratégico de uma empresa possa ser compreendido e comparado em termos de vantagem e diferenciação. A inovação no universo porteriano está claramente associada às transformações tecnológicas que as empresas empreendem. Ettlie, Bridges e O’Keefe (1984), propõem um modelo no qual a forma como a estratégia está estruturada pode mais facilmente levar as empresas a introduzirem inovações incrementais ou radicais. Augier e Teece (2008), sugerem que a estratégia está em permanente evolução, destacam o papel das lideranças no processo e introduzem o conceito de “capabilidade” dinâmica como possível caminho para, através da inovação, explicar desempenhos diferenciados entre empresas.
É importante reunir diversas formas que buscam compreender como a estratégia é concebida, estruturada e tem seu alcance avaliado na criação dos processos de inovação das empresas, sejam elas radicais ou incrementais (ETTLIE; BRIDGES; O’KEEFE, 1984).

Liderança

A liderança da empresa, mais especificamente a sua alta liderança, como um elemento capaz de polarizar toda a organização ou mesmo toda a rede interligada com o objetivo de lançar um novo produto ou desenvolver um novo processo. A importância da liderança também é consistentemente atestada por referências teóricas. Damanpour e Schneider (2006), estudam o efeito do ambiente sobre as fases de inovação, destacando o papel da alta liderança das empresas que desempenham a função de ligação (e de necessária harmonização) entre os diversos stakeholders da organização.
Ailin e Lindgren (2008), destacam a importância da liderança nas diferentes fases da inovação, mas, sobretudo, no aculturamento que as lideranças são capazes de realizar no sentido de fazer com que a inovação seja algo que se confunda com a própria essência da empresa.

Damanpour, Walker e Avellaneda (2009), estudam o papel das lideranças em organizações públicas, destacando o fato de que o nível de inovação (tecnológica ou organizacional) é diretamente proporcional ao comprometimento das altas lideranças. Assinalam ainda que o custo da implementação das inovações é menos relevante do que o comprometimento da alta gerência.
E um último elemento a ser destacado, não como os três constitutivos anteriores, mas em seu sentido mais amplo sobre o que pode produzir de novo e impactar a empresa, e mesmo a sociedade, traz a ideia de desempenho, no sentido de fazer com que esses elementos de fato introduzam um paradigma operacional e conduzam a empresa a outro patamar.
Recursos tangíveis e intangíveis, estratégia e liderança, esses três elementos como fonte de geração de vantagem competitiva, através do lançamento e difusão de inovações: o desafio passa a ser como aferir o desempenho na dimensão escolhida pela pesquisa.
Muitas são as fontes que destacam o papel da inovação no desempenho diferenciado das empresas. No tocante à percepção de desempenho pelo mercado de capitais, Chaney e Devinney (1992), desenvolvem uma pesquisa que, baseada na metodologia de estudo de eventos, relaciona o impacto do lançamento de novos produtos no desempenho do valor das ações da empresa. Klomp e Van Leeuwen (2001), usando bases de dados secundários e modelos matemáticos, relacionaram os estágios inicial e final das inovações com os respectivos indicadores econômicos com o objetivo de evidenciar o efeito das inovações no desempenho das empresas. Cainelli, Evangelista e Savona (2004), usando bases de dados secundários, comprovaram que as empresas de serviços inovadoras (avaliadas como tal pelo dispêndio apontado nas atividades de P&D) apresentavam desempenho superior ao daquelas cujos investimentos eram menores em inovação.

Kishida e Schulze (2005), dentre diversos fatores institucionais (nível de competição, ambiente voltado para inovação e outros), estudam como o lançamento de novos produtos impacta o desempenho e a trajetória de novas empresas. Se, por um lado, há robustas bases teóricas que relacionam inovação com o desempenho superior das empresas, por outro, as comprovações empíricas ainda não são totalmente conclusivas, conforme Brito, C., Brito, L. e Morganti (2009).
Seguramente, o desempenho a que se referem os autores é o ligado à operacionalidade e aos resultados auferidos pela empresa. A mensuração de desempenho é algo difícil, e nem sempre as concordâncias conceituais superam em número os pontos de vista divergentes (VENKATRAMAN; RAMANUJAM, 1986).

Na figura 5, estão relacionados os elementos básicos, acima descritos, que compõem uma organização: Recursos tangíveis e intangíveis, Liderança e Estratégia. Esses três elementos irão determinar, em seu ambiente operacional, o desempenho e seu eventual impacto na sociedade e sua percepção de valor no mercado.

Figura 5: Inovação na dimensão organizacional

Na síntese mostrada na figura 4, sociedade, ciência e indivíduo, de forma articulada, são capazes de gerar inovação. Porém, uma inovação que ainda, fronteiriça com a ideia e a própria invenção, demanda uma organização empresarial a fim de transformá-la em produto comercializável e possa gerar resultados com desempenhos competitivo.

Na figura 6, com a sobreposição dos elementos da figura 4 aos elementos da figura 5, podem ser visualizados todos os elementos mais relevantes que as diversas abordagens do tema oferece. No contexto da pesquisa empreendida, foi realçado o desdobramento da inovação como produto das organizações, cujo desempenho pode ser percebido pelo mercado.

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